sábado, 22 de fevereiro de 2014

Dose da Manha - Metadona

Dose da manhã
 
O acordar para mim é um arrastar, um ardor que me invade com uma fraqueza que quase já não me consigo levantar, sou despertado com suores que me encharcam os lençóis e me deixam num mau estar como que uma febre onde o frio e o calor me deixam histérico de uma raiva sem força de explodir.

Levanto-me com dificuldade, cada movimento para mim é embaraço,afinal,  tenho 38 anos e pareço um daqueles velhos que precisa da ajuda da mulher que ainda se mexe e o atura, para o movimentar. Assim sou eu.

A tremer olho para os lençóis molhados dos malditos suores matinais e para o conforto dos meus cobertores mas penso para comigo; não. Nem vale pena, será apenas um rebolar, um estar e não estar, um dormir acordado sem um sonho onde me agarrar.

Lentamente levanto-me e encontro as pantufas que com preguiça atirei para debaixo da cama na noite anterior, amaldiçoou-as por não estarem ali , já calçadas prontas para me transportarem até à porta do frigorifico, malditas, fizeram-me dobrar.

A ressaca é tão grande que nem consigo urinar.

Apresso-me numa correria cambaleante e abro a porta do quarto, aquela luz que vêm da sala cujo o estore já deixa entrar o sol da manha ofusca-me. Resisto. 

Olho de relance para a cama mais uma vez, Não. Nem pensar.

 -Para de te torturar! 
Digo eu enjoado de tão mal disposto que o meu estomago me deixa…

Ainda olho para o sofá e vejo o cobertor que ontem me deitei a ver um filme até as tantas. Os pratos no chão de uma ceia que só me fez mal e um cheiro a bafio próprio de quem esteve a fumar cigarros entre a janela e a rua gelada.

Os cheiros agoniam-me, revoltam-se-me o estomago, e continuo…

Finalmente estou à porta da cozinha. Abro o frigorífico. 

A metadona eu guardo-a sempre dentro de uma caixa de plástico envolta em várias camas de película aderente na prateleira de cima desta forma tenho a esperança que não perca as qualidades terapêuticas.

Rapidamente, e de forma automática, conto os frascos e com os dedos conto os dias para saber se as tomas estão corretas, não me vá falhar um dia e ficar a ressacar.

Com os dentes abro o selo do pequeno frasco de plástico que contém a minha “ vitamina” e despejo um bocadinho para dentro de outro frasco.  

Abro a torneira e com cuidado encho a outra metade do frasco com água, os líquidos misturam-se. 

Desta forma o sabor não é tão agreste, alias já me treinei a beber de forma a não tocar nas pontas nem nas laterais das papilas gustativas e digamos que se torna mais fácil, encho mais uma e duas vezes o frasco com agua para ter a certeza que não ficou lá nenhum resto, típicos hábitos drogado que procura o último grão de coca para fumar.




Chega uma altura que até este sabor intenso e único que quase me faz vomitar torna-se em um falso agradável, um anseio e um prazer, uma certeza que daqui a alguns minutos vou estar aliviado daquele sofrimento matinal.

E este è todos os dias o meu Acordar



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